ESPIRAL DA SENSIBILIDADE E DO CONHECIMENTO: UMA PROPOSTA POÉTICA DE AÇÃO

Euler Sandeville Jr.

como citar:
SANDEVILLE JR., Euler. Espiral da sensibilidade e do conhecimento: uma proposta poética de ação (2011). In SANDEVILLE JR., Euler. Paisagens Partilhadas. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Tese de Livre Docência, 2011, pg. 17 a 33.

Ilustração 1: Itatiaia, 2006. Errâncias urbanas e naturais, processos de criação artística e expressão espontânea, experiências nos limites da consciência e da paixão. Foto Euler Sandeville Jr.

Figura 2: Aula em Atibaia, 2007. Ações educativas: atelies de criação, grupos de trabalho e estudo, projetos de pesquisa da cultura e da paisagem, processos de ensino, capacitação e formação popular, debate da Universidade. Foto: acervo da disciplina.

Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento é uma proposta seminal, concebida entre 2002 e 2003 (Sandeville Jr. 2003a). Envolve vivências individuais e coletivas com intenção de criação, reelaboração de percepções e representações, pesquisa e debate da cultura, ação educativa e socioambiental fundada na experimentação e na experiência direta e colaborativa. Busca integração com propostas convergentes e o desdobramento por contágio imprevisível.

Procuro refletir em uma perspectiva experimental. Mantenho-me em um ponto de cautela e atenção com as dimensões institucionais e normativas que tentam abarcar nossas práticas e desejos, mas sei que é necessário e potente o diálogo com essas formas. O que fazemos e, principalmente, o modo como o fazemos, pode abraçar e expressar princípios necessários para nosso compromisso na vida em comum, em esferas públicas e coletivas de convivência, com liberdade, ação social e política. Princípios que permitem colocar questões fundantes, e indagar sobre as relações, o posicionamento no mundo contemporâneo.

A adoção de princípios e valores só faz sentido se não são enunciados, e sim práticas.

este projeto deseja propor

o desejo de amar
a alegria
o entendimento
a fraternidade
a paz
o respeito
a participação
a valorização humana
a integridade
a justiça
a compreensão
o desejo de crescer junto
o respeito à diversidade
a generosidade
a simplicidade

este projeto deseja se opor

à violência
à padronização
ao preconceito
ao racismo
à guerra
à indignidade
à exploração do trabalho
à miséria
à corrupção
à injustiça
à maldade
à ambição
à exclusão
ao ensimesmamento
à camuflagem

 

Esses princípios não são novidade, advêm de valores pacifistas, libertários, solidários, partilhados por diversas crenças, filosofias, formas de ativismo, embora raramente praticados. São valores humanos antigos que resistem em um novo mundo que se liquefaz tecnológico e consumista. Novo mundo, no qual a natureza e a vida se tornam engenharia e produto.

O projeto propõe interagir solidária e respeitosamente com outros humanos que, independentemente de suas crenças, buscam uma ação ética, sensível e consequente em sua jornada. Não basta olhar o que nos é externo e inteligir processos dos quais nos consideramos observadores. É necessário reconhecermo-nos partícipes, atuantes. Estamos comprometidos, em todo o sentido da palavra.

Figura 3: Ação do EIA em Itapcerica da Serra, 2008. O EIA é um coletivo autogestionado e aberto, que realiza festivais urbanos em colaboração com outros coletivos e com pessoas no espaço público. Foto Euler Sandeville Jr.

Figura 4: Ação do EIA na FAU, 2010. “Turismo urbano durante a EXPOFAU. 1a. Expedição de Espeleologia na FAU. Conheça as estalactites e o grande espelho d’água suspenso. Traga capacete, lanterna e guarda-chuva”. Foto Euler Sandeville Jr.

Penso nos homens no mundo, e me vejo desafiado a fazer bem mais do que já consegui, diante da imensa necessidade que se apresenta, mesmo a um olhar distraído. Como pensar esses homens contemporâneos no mundo, quem são?

Somos nós mesmos.

Tal entendimento indica que necessitamos sonhar com algo digno do que podemos ser como humanos, o que demanda uma luta íntima, a par de ser solidária. Vivemos tempos brutais. Para superá-los, é necessário crescer, superar-se constantemente, antes de mais nada. Dependemos então da ajuda mútua, para que possamos buscar o crescimento pessoal na prática desses valores.

Para mudar, preciso antes mudar a minha própria forma de aprender e a linguagem que a sustenta. Aprender com o outro, aprender junto, onde ele está, e não apenas sobre onde ele está. Só isso já traria uma renovação de posicionamento (posição é uma qualidade situada, e não uma declaração literária sobre ela).

Trata-se de um questionamento profundo do que somos e fazemos, do que aspiramos, do que queremos com toda a nossa boa vontade (quando existe). Ou seja, de onde nos vem o sentido. Se algo vai nos angustiar, deve ser isso: está tudo por fazer, e conseguimos menos do que deveríamos, enredados em uma teia que se delicia – e nos delicia – com o próprio visco. Bem, mas é aí mesmo que encontramos pessoas de grandeza moral e humana, desconhecidas, vivendo, criando brechas para além desse enredamento, para o que não há uma receita, uma forma que abarque todas as outras.

Não haveremos de agir motivados meramente por angústia, ansiedade ou tristeza – impossíveis de não se sentir diante da situação que presenciamos. A ação e a inquietação podem ser movidas pela alegria do convívio, da partilha maravilhosa de saberes em curso no existir cotidiano, na amizade, na celebração.

Trata-se de uma celebração da vida.

E também de estratégia, de não se tornar igual ao que se critica, de não agir pelos mesmos meios e motivações, de não se tornar o inferno1 ou o “Zé Ninguém”2 dos que nos cercam. Onde está esse inferno simbólico mencionado? Não está nas palavras nem nas ruas (em que pese a tamanha injustiça e ganância que nelas se veem), nem nas exterioridades e suas representações, suas seduções. Está, creio, no âmago de cada um, pois lá temos tanto o melhor quanto o pior da nossa humanidade, para escolhermos, como em um dito ancestral: o homem bom, do bom tesouro do coração tira coisas boas, e o homem mau, do mau tesouro tira coisas más.

Chamam-te “Zé Ninguém!” “Homem Comum” e, ao que dizem, começou a tua era, a “Era do Homem Comum”. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado. Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador que queira trabalhar e ganhar o seu pão deve conhecer as suas limitações. Há algumas décadas, tu, Zé Ninguém, começaste a penetrar no governo da Terra. O futuro da raça humana depende, a partir de agora, da maneira como pensas e ages. Porém, nem os teus mestres nem os teus senhores te dizem como realmente pensas e és, ninguém ousa dirigir-te a única critica que te podia tornar apto a ser inabalável senhor dos teus destinos. És “livre” apenas num sentido: livre da educação que te permitiria conduzires a tua vida como te aprouvesse, acima da autocrítica. Nunca te ouvi queixar: “Vocês promovem-me a futuro senhor de mim próprio e do meu mundo, mas não me dizem como fazê-lo e não me apontam erros no que penso e faço”.

W. Reich, 2007:9.

Dizer que não há bom, nem mau, tanto quanto no extremo oposto dizer que são uma condição imanente de cada um, é ignorar o melhor sentido dessas palavras. Há escolhas a serem feitas, e o modo como escolhemos aponta para o solidário, o público, o amoroso, ou para sua sua negação e asfixia. Aponta para como estamos nos construindo em nossa história, com nossas opções. Não há uma condição dada, há condições possíveis, construídas constantemente, na prática. Todos temos esse imenso caudal de possibilidades para acessar no nosso íntimo. Acho que é isto, é o que fazemos e escolhemos o que nos diferencia, e o que nos faz, gradualmente, o que somos.

Figura 5: Ilustração de Willian Steig para Escute, Zé ninguém (Reich 2007)

Daí a dificuldade extrema: tudo por aqui está em trânsito, em descoberta, a partir de uma convicção que se realiza em ambientes multifacetados, reconstruindo permanentemente sua coerência no aprendizado que dura a duração da vida. Permanecem, em meio a essas mudanças, os princípios fundadores, os valores que geraram a espiral e sua poética. Mas sua construção é válida na invenção cotidiana, na autocrítica, na experimentação permanente de formas e estratégias que os realizem e os ampliem no convívio solidário, afetuoso e colaborativo com os outros. É sim uma tentativa de construção e aprendizado, que não se pretende concluir por meio de um projeto sabido antes, mas de um projeto estabelecido no vivido, na experiência de seus horizontes e suas contradições, na sua fragilidade reconhecida, no seu desejo e em sua busca.

Figura 6: Rio Tiburtino, Mucugê, BA, 1998. O Memorial 2003 da Espiral começava com essa imagem e o texto: “Rio Tiburtino, em Mucugê, BA. Que significados nos traz a paisagem refletida na água em um trecho tão sereno do rio, logo antes de algumas quedas? Quais os sentidos da água na paisagem? Quais os sentidos da paisagem para nós? E a pergunta que nos deve ensinar as outras: quais os nossos sentidos na paisagem?”. Foto Euler Sandeville Jr.

Figura 7: Conceito do jardim da espiral em Memorial Espiral 2003.

Uma espiral é um movimento harmônico e imprevisível, tridimensional, que pode se expandir em todas as direções, e por isso mesmo não isento de contradições. É uma forma vaga e variada, que inspirou aquela ideia que temos da espiral como um desenvolvimento numa equação matemática e numa proporção áurea. Sua forma, entretanto, não precisa ser de uma geometria perfeita, pois essa ideia de perfeição seria uma abstração. Imaginemos uma espiral que pudesse se desdobrar em vários pontos e planos, livre da linearidade bidimensional do papel que faz parecer natural tudo ser plano. Imaginemos também que tocasse outras espirais, e a cada ponto surgissem ondas animando os mundos, como se várias pedras fossem atiradas quase simultaneamente na superfície de um lago.

Assim, o desdobramento da espiral, entre uma função matemática e um desenho aleatório, entre o expandir-se ao infinito de suas possibilidades e o convergir a um centro – no limite a um infinito interno que tende a um ponto de geração, põe em contato diversas visões de mundo. Visões de mundo que se agrupam e se dissolvem, como as imagens breves em um espelho d’água convidando o olhar ao repouso e ao movimento, à percepção de um ponto gerador que transborda. Essas imagens são segredos, que nos convidam de um modo ora suave ora intenso, aos lugares que as geraram e aos lugares para onde transbordam.

Memorial Espiral (Sandeville Jr., 2003a).

Essa proposição se pauta pela investigação na construção de uma mensagem ancorada em uma reflexão mais ampla, sob a forma de um debate da cultura. Expressa um compromisso com a existência e com a busca de uma “arte-vivência” e de um “conhecimento-ação”, que tenha sua raiz no prazer, na sensibilidade, na descoberta e na convicção. Nasce de buscas pessoais, convicções, desencontros e desencantos, de esperanças, pesquisas, práticas profissionais e criativas, convivência nem sempre fácil no espaço comum.

Nesse processo, aprendo. E formulo a ideia da espiral, que vai se transformando, voltando a ser, nebulando-se, e encorajando-me a ampliar a proposta dentro das minhas possibilidades de ação em interface com outros. Trata-se de um símbolo e uma ideia (como um jardim, também é símbolo, poética, e técnica3), para mover um princípio de conhecimento e afeição que permeia diversas possibilidades de atuação e expressão. São possibilidades artísticas, de ensino e pesquisa, de engajamento em programas. Movemo-nos por um patrimônio comum, para o qual confluo, de modo investigativo e apaixonado, possibilidades criativas e saberes. Homenageio o amor, a liberdade, a alegria e a vida. Tenho (temos?) tudo a aprender nessa direção, importa querer e persistir e reinventar oportunidades.

As experimentações permitem questionar pressupostos e aprofundar perspectivas. Aprender em ação interagindo em circunstâncias diversas, estabelecendo fluxos entre os limites institucionais e a experiência sensível e cognitiva que os transcende. Consistem, também, em propormo-nos como um desafio mútuo. Conduzem a pensar criticamente possibilidades e alternativas diversas de organização e atuação na produção do conhecimento e seu acesso, no desenvolvimento sensível, na ação cultural e solidária, em processos de ensino, formação e participação, na busca e uso de recursos, nos processos de transformação do ambiente comum.

Todo processo de relação consigo, com o mundo, com os seus e com outros, é um processo de conhecimento. Assim, conhecer é existir.

O saber, por isso, também é Labirinto, em que razão e loucura, paixão e comedimento, transparência e opacidade, esperança e ansiedade, curiosidade e medo, intuição e certeza, fantasia e objetivação, múltiplas formas de beleza, de sedução, desejo, decisão, múltiplas tensões e possibilidades que em escolhas entre o que é ambíguo e a convicção, não se colocam como dualidade, mas como intensidade.

O labirinto frequentemente é pensado como jogo e como arquétipo (ou o sumário de uma ordem oculta), formulado a partir de um antagonismo predestinado a se resolver por quem se imagina dentro, a partir de sua contemplação de fora, como “mapa”. Isso é mais uma inserção espectral, fantasmagórica, privada do tato, em que, por meio da fantasia segura da cartografia, pode-se colocar entre a beleza e a brutalidade, entre a ordem e a perda de referências, etc.. Isso, porém, é uma tranquilidade que provavelmente não nos ofereceria um labirinto. Não linear, um labirinto difere da elegância e do mistério de seu desenho nos jardins, mandalas e azulejos, que nos acenam com algum comedido e resolvido atordoamento.

Uma coisa é contemplá-lo, subjugado à segurança da distância, outra é estar lá. Estar no labirinto, de fato, pouco tem a ver com a dualidade entre inteligência e ferocidade. Contemplá-lo pode ser jogo, símbolo, controle. Estar no labirinto não é oscilar no pêndulo entre razão e loucura, por exemplo. É a intensidade e a totalidade dessa tensão, é não estar localizado, é estar em risco. Deveria ser pensado como desconforto. É nesse desconforto, que não é linear (não é, por exemplo razão versus loucura), mas é denso e imerso (razão entranhada em loucura, paixão entranhada em comedimento, esperança entranhada em ansiedade, curiosidade entranhada em medo e vice-versa; etc.), que se desafia a desenhar percursos que almejam ser éticos, de fato. Os fios de Ariadne servem a quem está voltando, mas não estamos voltando. Existir nesse labirinto é percorrê-lo, existir é conhecer. Trata-se então de propor e argumentar por um novo sentido e significação, por uma maior abrangência para o conhecimento. Mas será novo mesmo, ou será que se perdeu esse significado, transformando-se o herói no terror que controla o labirinto? Um labirinto normatizado, certificado, onde o monstruoso não é o selvagem, mas sua negação, sua compensação, porque o normal é extremamente brutal.

A cartografia física e simbólica da USP sugere, efetivamente, um Labirinto.

Neves, 2005:107

O que arquitetos e labirintos têm em comum? Arquitetos parecem ter mais a ver com Arrabal. Se pensarmos no mundo ordenado das formas sob a luz de Le Corbusier, na solidez dissolvente da forma de Frank Gehry, ou no Hortus Palatinus, no Castelo de Heidelberg concebido por Salomon de Caus, podemos concluir que os arquitetos pensam uma ordem. Mas, talvez, como ensina Dédalo, isso tenha a ver com organizar o mundo e situar-se nas suas relações de poder, com a criação de um lugar de desordem contida (o labirinto) dentro de uma ordem conhecida (o castelo, a cidade, o jardim), diante de um mundo em desordem (a paisagem, o outro). Que invenção genial, o labirinto põe em ordem o mundo ao construir um lugar para a desordem e o brutal. No entanto, a essência do labirinto não é arquitetônica, é existencial, dramática.

Figura 8: Campo na região dos Encanados, Ribeirão Grande, Vale do Ribeira, para proposição de projeto coletivo com população. Fev. 2007. Foto Euler Sandeville Jr.

A paisagem tem um papel importante nessas atividades de um questionamento contínuo. Estar nela é tanto estar além do labirinto, quanto partilhar outros labirintos, imerso neles. Reconhecemo-nos amalgamados nela como projeto de aprendizagem que desafia e repropõe as zonas de conforto. É entendida como uma condição existencial em suas articulações com instâncias cognitivas e possibilidades poéticas, com ações acadêmias e livres. Pensar e experienciar a paisagem é vivenciar e pensar o mundo, a cultura, os valores. É reconhecer que existimos em sínteses contraditórias e complexas (históricas e existenciais) de trabalhos que nos precederam e continuam operando para além do nosso, como em nós também operam forças contraditórias e complexas. Processos que são tanto de reconstrução quanto de desconstrução, de identificação e de alteridade, de estruturas e de acasos, sendo, por isso mesmo, possibilidades.

Figura 9: Deriva pelo Jequitinhonha, Salto da Divisa. . Foto Euler Sandeville Jr. 2002.

Figura 10: Experiência Urbana 1. Disponível em http://espiral.net.br/. Disciplina Arte e Projeto da Paisagem. 2004.. Foto Euler Sandeville Jr.

Paisagens são, nesse sentido, heranças, sempre inconclusas e em operação: possíveis. São encontros de poéticas, projetos, desejos, contradições, esperanças, afetos, subjetividades. Ações em espiral. As poéticas da paisagem, como as da intimidade, referem-se à vida, aos locais que transformamos em seu decurso, às significações e projetos que se desdobram no nosso fazer e das pessoas com as quais partilhamos, para melhor ou não, tempo-espaços, paisagens. São parte do nosso sucesso e do nosso fracasso, sendo que o que distingue essas coisas não é uma fronteira nítida, porque por vezes se embrenham. Ainda mais por isso, o afeto, a alegria, o amor, a amizade, o sonho que se busca realizar com outros são essenciais ao conhecimento e à aprendizagem.

Figura 11: Crianças na favela Ordem e Progresso, Brasilândia, 2010, durante a disciplina Arte e Projeto da Paisagem.  Foto ESJ.

O objetivo é colaborativamente mover nossos conhecimentos sobre as dinâmicas ecológicas, urbanas e socioculturais, reconstruindo-os conjuntamente com parceiros externos à Universidade4 a partir de processos experimentais, sensíveis e cognitivos de entendimento e transformação. Para tanto, além dos estudos sobre os processos e dinâmicas das paisagens e suas formas de apropriação social e pessoal, nos grupos de estudo e de pesquisa, das vivências pessoais, são desenvolvidos projetos em processos colaborativos, na perspectiva de uma educação-pesquisa-aprendizado em ação, experimental e existencial.

O conhecimento e o aprendizado são entendidos como uma construção partilhada de saberes e práticas. O projeto decorre de um longo caminhar como docente, pesquisador e artista, sendo o conhecimento poesia por outros meios, e a vida arte, ação estética, conhecimento poético e afetivo, compromisso social e aprendizado existencial com o outro.

Espiral da Sensibilidade e do Conhecimento é assim um projeto poético e acadêmico, não disciplinar, elaborado a partir de 2002. Possui, atualmente, os seguintes eixos propositivos, com alguma inspiração libertário-pacifista, de valores humanistas e solidários:

  • a paisagem é entendida como experiência partilhada social, cultural e existencialmente, e portanto como uma condição de ser no mundo, articulando esferas da subjetividade, do simbólico, da sociabilidade no cotidiano, e dos tempos nos quais a paisagem se forma como herança e patrimônio coletivo que nos transcende, mas que é também um futuro que vamos definindo com nossas ações, sendo todos coautores de seu destino;

  • a cidade é pensada como processo de educação ativa e de construção de conhecimentos e de práticas coletivas, que abrigam as possibilidades de realização e sonho do habitar o nosso mundo, o nosso tempo; é entendida também como estrutura urbana decorrente de uma produção desigual e injusta do espaço humano habitado e sua história;

  • a memória, a imaginação e a história são percebidas como constituintes ativos do mundo em transformação, e portanto, criativos: são essenciais à percepção e transformação de nossas práticas sociais, ao mesmo tempo que geram escrituras e representações sobre o passado e o presente, que indicam nosso lugar desejado no mundo e em nossa própria história, colocando questões éticas fundamentais e difíceis ao pesquisador em ação;

  • a arte é vivida como experiência sensível e cognitiva de descoberta de si e do outro no mundo, por meio de linguagens que podem ser dinâmicas e não lineares, carregadas de densidades subjetivas e desejos, de intencionalidades, mas é um processo também de construção de afetividades e de celebração;

  • a alegria, a satisfação, o amor, a amizade, o sonho, a confiança mútua são constituintes necessários de uma busca cognitiva que se pretenda relevante, que se comprometa com a dimensão humana e social dos nossos saberes, que é uma condição estética e ética, mas que só pode realizar-se concretamente na tensão das próprias contradições e potências como um longo processo de aprendizagem ativa entre e com outros;

  • a pesquisa é um processo aberto e experimental contínuo e não linear de conhecimento e posicionamento no mundo, que depende tanto da vivência quanto do acúmulo de conhecimentos e modos de conhecer os processos, sendo fundamentalmente aprendizado e partilha, e que portanto deve sim alimentar-se de razões éticas e sensíveis, e de processos partilhados e participantes com aqueles a quem se refere a produção, divulgação e debate do conhecimento, o que contribui para seu alcance humano e social.

Quatro eixos tornam-se fundamentais nessa proposição:

criatividade (sensibilização),

investigação (construção),

participação (integração solidária),

compromisso social (ação efetiva).

Figura 12: Quadro conceitual da espiral. Concepção Euler Sandeville Jr..

Figura 13: Convento e Colégio Caraça, MG, 2010, foto Euler Sandeville Jr. A experiência no Caraça integra o livro As Paredes, A Paisagem, As Formas da Morte, As Possibilidades da Vida; Sandeville Jr. 2011. . Foto Euler Sandeville Jr.

Figura 14: Paepalanthus sp, Caraça, MG.  . Foto Euler Sandeville Jr.

estou diante de algo novo: um novo olhar que se impõe como sedução e razão, com a urgência e a distensão multiforme da vida, mas ainda não sei bem o que é, como quando o estado poético está pulsando, mas a poesia ainda não encontrou sua forma vital

__________________________________________________
Notas

1 O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço” (Calvino, 1990:150, ênfase na transcrição).

2 Do livro de W. Reich, 2007: Escute, Zé Ninguém!

3 A primeira forma (2002) que propus para a Espiral era a de um jardim, coletivamente concebido e mantido localmente, replicando-se no espaço. A Espiral transformou-se, de jardim em um princípio de ação (em 2003). Mas encontro algum paralelo com a ideia de Nicolau Sevcenko (2000), que propôs para a comemoração dos 500 anos de independência do Brasil um marco que acrescentasse, nesse novo século, uma dimensão temporal ao pensamento crítico e à ação política. Esse prazo longo seria possibilitado por um jardim que denominou de Jardim de Pindorama, manifesto para o século 21. Seria um círculo de 100 buritis plantados um cada ano, “Um marco singelo, afeito à escala humana, vivo, envolvente e aberto à participação interativa de todo e qualquer cidadão. Algo tão simples, belo e mágico quanto um jardim tropical” (Sevcenko 2000:20).

4 Isso na medida em que a minha participação na Universidade pública desde 2001 é minha atividade fundamental, mas o projeto poderia construir-se também em outros contextos, como muitas vezes ocorre de fato.